Ao passear por entre as ruas inundadas de história em Toledo, onde cada porta e cada janela se encontram forradas por buracos de balas, as lojas para os turistas têm montras cheias de espadas e armaduras. O primeiro pensamento que tenho assalta-me vigorosamente – “Mãe, estás-me a imaginar neste lugar há uns bons anos atrás?”, e ela sorri, recordando comigo aquela minha grande paixão. Eu tinha 5 anos e um objectivo na mente: fazer espadas do que quer que fosse que me passasse pelas mãos.
Lembro-me de estar a sair da casa em Massamá para ir para o infantário, a horas demasiado pequenas para a minha rabugice, e só ter despertado no carro quando pedi uma garrafa de água ao meu pai. Espada Nova! Mas no dia seguinte a garrafa já sabia a pouco, e lá tentava eu inventar outro modelo. A minha mãe delirava comigo enquanto me via absorto naquelas brincadeiras de cavaleiros e batalhas, mas quando lhe ia às gavetas e desarrumava as colheres de pau e afins, o semblante sorridente mudava-se. E eu com isso! Era tão melhor poder andar pelos corredores que, na altura, pareciam gigantes a comparar com os meus cento e poucos centímetros, do que manter a casa arrumada!
Ao olhar para esses dias da minha infância, consigo encontrar alguns “flashes” na minha memória com imagens perfeitas daqueles tempos. Lembro-me dos paus das árvores na Terra dos meus avós serem as armas ideais para os meus confrontos com guerreiros nobres e imaginários. Lembro-me de fugir para debaixo das escadas da Pensão Luar do Senhor Raul em Odeceixe e fazer das tábuas de madeira que por ali estavam o instrumento ideal para a minha imaginação. Lembro-me de estar no circo e sentir os olhos brilharem de alegria – não com os palhaços de apito na boca, mas sim com as espadas luminosas que umas senhoras de avental vendiam nas bancadas.
E aqui, em Espanha, tão longe destas memórias, sinto-me perto daquilo que sentia outrora. Não havia volta a dar, eu gostava mesmo daquilo!
Assim, naquela inocência de mundo fantástico onde eu, com uma espada melhor que a de qualquer outro, ganhava lutas de espadachins, vivia feliz. E hoje, sorrio e sinto de novo o sabor da malandrice da minha infância, ao recordar o porquê daquela felicidade tão pura e honesta que as espadas me traziam. Eu fazia-o apenas por duas razões: por tudo e por nada. E o mundo do imaginário rendia-se-me.
:)
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