domingo, 22 de janeiro de 2012

Retrato dela ,

      Lá fora chove. Ouvem-se as pequenas gotinhas que, a pouco e pouco, se têm tornado tempestuosas a roçar os ramos das árvores do pátio. A mansão está gelada. Olho-me ao espelho, na penumbra da noite, e a imagem que tantos anos vi reflectida desapareceu. A mulher imponente d’Antes não quis ficar para sempre. Melhor, não resistiu para sempre. E olho para o passado. Neste momento, não sou eu que estou reflectida no espelho – é Mónica. As memórias d’Antes permanecem cravadas na minha memória. As memórias de uma vida gloriosa, onde a maior lacuna foi, sem dúvida, a glória do meu ser. Viam-me ideal, inquebrável; no fundo, fantástica. Mas sabiam-me fútil aqueles que não olhavam, mas observavam. Eram poucos, sempre os reneguei e, hoje, percebo que poderiam ter sido a minha salvação. Mónica era doente! Achava o mundo o pior lugar e, por isso, manipulava-o. Mónica foi, talvez, a mulher mais estúpida e inteligente que conheci. E como não encontrava, simultaneamente, gente estúpida e inteligente como ela, achava que alcançaria a Felicidade através da perfeição. A certa altura, acho até que deixei de pensar em Felicidade – era tudo regido pela força das expectativas que já o Príncipe deste Mundo tinha em mim.
      Agora, que o nome Mónica deixou de me pertencer, quero partir sem rumo. Mas estou velha. Sinto-me velha. Mónica nunca se sentiria velha nem exausta; mas eu sinto-me. O desgraçado do homem que toda a vida governei partiu, mas não me sinto mais sozinha do que Antes. Acho que me sinto tão sozinha como se estivesse, na pele de Mónica, numa festa entranhada em multidões. Por isso vou dormir. E vou sonhar – descobri que afinal é mesmo possível.



[Texto sobre um conto de Mónica, made in aula de Língua Portuguesa]

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